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terça-feira, 8 de junho de 2010

Útopia

Nos meus sonhos,
Onde tudo é merecido e
nada é pecado
Onde sou rainha de mim e
O belo é Fado.

Ah, quem me ensine a sonhar
De olhos fechados, sorriso nos lábios,
E a lá ficar.

Ah, quem me ajude a dizer?
Com a mente sem medos e caneta dos dedos
O sonho escrever.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Nefelibata

Não demores, que é exasperante
Se é para te ter às postas, que te não tenha de todo.
Vem ou vai-te e eu não me afligirei mais.
Mas não venhas nem vás, porque atroz é o hedonismo que se fica
Apenas pela aparência.





quinta-feira, 11 de junho de 2009

Quando eu sonho, tu sonhas comigo


Quando eu sonho, tu sonhas comigo. Quando eu amo, tu amas comigo. Quando tu amas, ensinas-me a amar. Eu sonho, tu realizas. Quando eu sinto, comunicamos os dois, mudos e calados, como as duas mãos côncavas – mas diferentes - que me mostraste. O quando de que falo é o presente que se tem, mas que se não mais repete.
Admiras-me da mesma forma que me vou admirando ao passo que me vou conhecendo. Contudo, antes de me criar, já tu me admiravas desse lado, de dentro da janela; antes de eu me conhecer já tu me conhecias.
E de ti, o que te conheço é o que descubro que em mim é possível de sentir.

domingo, 24 de maio de 2009

Não me perguntes se acredito


Não me perguntes se acredito
Em tudo o que digo.
Se houver alguma contradição,
Toma por bem a tua própria razão.

Não temas por desconfiar do que
Os teus olhos tomam por bonito,
Por certo e genuíno, porque
Não deixa de estar escondido.

L i v r e, aquele que não tem
Ideias prévias de ninguém,
Que é prisioneiro da moral dos outros,
Pois a sua foi com os porcos.

sábado, 23 de maio de 2009

Aqui-ali


Gosto do Outono apenas quando me lembra
De viver o Verão.
No Outono vive o Verão sem corpo.
A realidade torna-se mito. E o mito é em vão.
Mas não gosto do Outono para viver o Outono, é pena
Ser demorado e moroso como um morto.

Gosto do Inverno apenas quando
Sinto que precipita a Primavera.
O mito torna-se realidade, antecipando
A minha espera.
Mas não gosto do Inverno para viver o Inverno,
Porque me esquece que há Primavera.

O Outono lembra.
O Inverno esquece.
A Primavera sopra.
O Verão desaparece.

Mas quem sabe o que é evocar
É porque também sabe o que é esquecer
E o que sopra promete passar
E desaparecer.

domingo, 26 de abril de 2009


Nunca desapontei ninguém, porque nunca ninguém esperou nada de mim senão eu.


-Não me ames.
-Porquê?
-Porque te amo.

Gosto de me ver




Gosto de me ver, mesmo não tendo prazer nisso.
Gosto de desprevenidamente me apreciar, porque me amo sem saber que sou eu a pessoa que amo. Passo a ser o outro que não existe, o melhor observador, o maior admirador, o mais apaixonado, mas só até ter consciência de que sou eu que observo, que amo.

A consciência não bate à porta, como as percepções que a antecedem; mas, ao contrário, não é bem vinda. E é gorda, não permite lugar para mais nada senão para a sua própria função: pensar.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Red line

Tem de haver um equilíbrio.
A curiosidade não deve ser ilimitada.
O envolvimento, a sensibilidade devem ser travados.
É preciso conhecer o limite, Avançando.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Ouve-te


Nunca a alheia vontade, inda que grata,
Cumpras por própria. Manda no que fazes,
Nem de ti mesmo servo.
Ninguém te dá quem és. Nada te mude.
Teu intimo destino involuntário
Cumpre alto
.
Sê teu filho.


Ricardo Reis, Poesia


terça-feira, 7 de abril de 2009

Insónia

A insónia é o castigo dos cobardes.
Ser cobarde é ansiar o próximo adormecer.
Ser ousado é ansiar o próximo acordar.
Ser ninguém é não ansiar. (Não desejar é conhecer)
Viver dias e noites é o castigo de ninguém.
Os castigos do ousado prometem continuamente o seu bem-estar.

Tu, que subestimas


Tu, que subestimas, fazes bem
Pensar coisa nenhuma de todas as coisas.
Nem eu sou capaz de o fazer
Nem tu pensas essas coisas.