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terça-feira, 8 de junho de 2010

Silêncio


Dá-te como novo, imperfeito e inacabado, por uns minutos, sem que tenhas outro pensamento senão esse, sem que nem outros pensamentos relacionados possam interferir.
E, agora, sem que te exija grande imaginação, sente-te simplesmente; sente aquilo que és, sê-te neste momento, vê-te, analisa-te, e relaciona-o com a primeira sensação. A que sabe, agora?

Aquando da primeira sensação, esta provém-me do hedonismo que comparo ao que sentia em criança: a maravilha que o mundo se me representa, a minha curiosidade de o conhecer e a minha sensação de que terei muito tempo para o conhecer, para o conhecer no seu todo, sem consciência da impotência que possuo perante tal. Posto isto, a fantasia da possibilidade levanta um paradoxo: a presença da motivação aliada à ausência da preocupação.
Não quero com isto dizer que a preocupação será um factor predicador da motivação. O que insinuo e pretendo salientar é que a relação entre estas duas variáveis torna-se muitas vezes necessária aos olhos dos adultos menos apaixonados.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Metodo clínico com caneta.

Piaget dizia que só pensava com uma caneta na mão (relativamente às entrevistas do método clínico experimental).
Porquê?
Talvez porque se não a apontarmos, a realidade passa-nos sem que a recebamos sequer. Não falo da realidade que olhamos, mas da que vemos.
Só depois de ver a realidade escrita é que lhe dá palavra - é uma máxima registada à qual procuramos dar explicações; é o pormenor que não escapou e que permite relacionar com mil e mais alguns conhecimentos, permitindo dar sentido ao todo que o envolve e não olhar para o vazio, mas para o material que temos (é a prova física do que se passa e já passou).
Mas a caneta não consegue efectivamente registar todas as observações, porque a resposta da criança não se resume ao que fala, mas a todo o resto de si que comunica com o experimentador. E mesmo que esse resto seja registado, não será certamente registada a sua conduta no seu todo, mas só o que se torna pregnante ao entrevistador. Fora essa pregnância, temos toda a explicação que o experimentador procura para explicar a conduta do outro.

terça-feira, 31 de março de 2009

A Arte

Não procuro a essência verdadeira, mas a verdadeira essência das coisas.
Depois disso, procuro a verdade essencial, a permanente, a que não tem espaço nem tempo, a eterna, a que não é contada.
O real é o que existe de verdade, o que não é imaginário, ilusório, utópico, fantasioso, aparente, enganador.
Assim, a imaginação é um mero embuste, algo que não existe verdadeiramente enquanto matéria.
Pode, contudo, existir de facto quando a complexidade conceptual da mente, que lhe dá forma abstracta, é reproduzida e representada para o mundo real. A esse parto, a essas reproduções que descem ao mundo, damos o nome de Arte. No entanto, apesar da sua presença no mundo real, a Arte não existe realmente; pois apesar do espaço ser determinado, a sua presença não é figurada.
Isto acontece porque a Arte é uma forma de união entre a verdade abstracta e a verdade efectiva, permitindo ao mundo real receber o vago. Permite a reunião entre a verdadeira essência e a essência verdadeira.
O resultado dessa união é uma síntese criativa, um novo novo que é criado com a intenção de ser transmitido e, por isso, é novo e diferente do seu progenitor.

A dor lida não é igual à dor sentida nem à dor escrita. Em qual está a verdade?

Não existe arte nua.

A arte só existe se o homem existir,
Nunca é desprovida de juízos de valor.
A criação de Deus é o universo;
A do homem é o já criado e ainda não descoberto.

Na criação do homem.





"(...)sem adversidade o ser humano não poderia melhorar."

Nem precisaria, pois sem pecados o ser humano seria perfeito, logo não precisaria de se aperfeiçoar. Contudo, como ser Homem é ser pecador, imperfeito, inacabado, incompleto; ser Homem é ao mesmo tempo ser lutador, guerreiro contra si mesmo, contra o pecado, o mal que transporta consigo; procurando a sua origem, o bem, o que antecede o mal e o que sucede a esperança, o sucesso, o parto, o renascimento, o 5º Império. O sucesso é aquilo que vem depois da esperança, o que sucede, o que nasce (de novo).
Mas, se o homem luta contra o pecado, contra o mal e se a esperança só existe se o mal existe, então a esperança não deve acabar nunca para o sucesso não acabar nunca, apesar de nunca ter existido realmente enquanto “aquilo que sucede a esperança”.
Se assim é, então a luta, o conflito não tem fim. E este é o conhecimento, este é o nada, aquilo que não pode ser revelado, aquilo que não pode ser antecipado, aquilo que Prometeu ainda conseguiu que não escapasse quando fechou a caixa de Pandora e fechado ficou o mal que acaba com a esperança - a antecipação do conhecimento.
Então, uma vez que ao homem foi-lhe oferecido o fogo, o desejo de conhecimento, a força de lutar; o que faz ele se descobre o nada, se descobre que o conflito não acaba nunca?



O homem possui a capacidade de conhecer o luminoso partindo da sombra, e, assim, conhecendo o nada, tudo ele conhece.


terça-feira, 24 de março de 2009

Mente = espírito = alma = ser

Se a mente não tem lugar no cérebro, então se nos fizessem um transplante de cérebro continuaríamos a ter a mesma mente, o mesmo ser?

domingo, 15 de março de 2009

O Quase

Só desejo o que não tenho.
Mas não desejo ter, apesar de não ter, porque tenho a ilusão que tenho. O que desejo é conhecer.
O desejo é-me tudo e o conhecimento nada.
Sonho com o que me é impossível.
Quero descobrir o caminho que não precisa de técnicas nem ferramentas para ser caminhado.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Espelho - 1

Estou só.
Sou só.
Afugento também o meu Eu.
Ele fica só, mas a verdade também.
E eu sinto-me bem.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Alívio temporário


A desorganização interna pela qual a pessoa esteja a passar é compensada por uma necessidade de organização e controlo exteriores.
Obsessão-compulsão, Ana Rita Dias

Existe uma necessidade interna que se vai manifestar no exterior, no corpo. Ao satisfazer a necessidade externa estou ilusoriamente e temporariamente a satisfazer a necessidade interna.
O facto de a satisfação interna ser ilusória significa que esta não é efectivamente satisfeita através da resposta imediata do individuo, pois a forma como a procurou satisfazer corresponde à forma como a percebeu.
O que vai acontecer é que o facto do indivíduo encarar a necessidade original de forma indirecta, colocando-lhe a máscara da necessidade exterior, e sabendo, contudo, que existe a interior que provoca a secundária, exterior, pode ocultar sempre a necessidade original sem que esta nunca seja verdadeiramente satisfeita e fazendo com que esta provoque continuamente uma série de comportamentos compulsivos que não serão resolvidos nunca enquanto o sujeito não encarar a questão, a causa do seu mal-estar de forma directa e profunda.

E porquê a importância de encarar a necessidade original? Pelo facto de que ela irá sempre existir de forma abstracta até o sujeito conseguir uma resposta satisfória; irá sempre marcar a sua presença através das necessidades exteriores como um fantasma que desassossega a mente, que lhe cria estados de ansiedade.

O individuo procura resolver o problema da periferia para o cerne da questão. contudo, como vimos, esta forma acarreta uma insatisfação e um agravamento da situação, pois a solução deve albergar a nossa posição activa, forte, determinada, resolvendo o problema partindo da causa maior, sem a contornar, sem criar teias, mas recorrendo a nós mesmos, ao Eu.

No entanto, não basta possuir consciência activa sobre a nossa inquietação, é necessária dar acção física ao exercício mental, de modo a não criar a angustia daquele a quem faltou a vontade de colocar de forma pragmática a resolução e a procura do equilíbrio.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Entre nós há uma janela. Eu estou do lado de dentro


Não é este o conceito dos pessimistas, como aquele de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde ele tecia palha para se distrair. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incómodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que apliquemos à obra que produzimos. Produzimo-la, é certo, para nos distrair, porém não como o preso que tece a palha, para se distrair do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se distrair, sem mais nada.
Pessoa



Amo o optimista, aprecio-lhe todos os passos que dá na vida, o que dela faz, aquilo que em si próprio cria. O optimista é o criador exemplar que deve ser contemplado por todos os que perdem tempo em pensar. Ele, mesmo conhecendo, mesmo vendo, sabe viver simplesmente.
O que resta ao pessimista senão a contemplação do destino de forma morosa? A única coisa que tem é o potencial para renegar a admiração pela acção, o facto de a querer viver. Mas também o próprio potencial tem moleza.
O contemplador é aquele que contempla tudo "na sua íntima substância". Em vigília, p e r d e - s e , esgota-se e volta a adormecer. Sobrevive, gozando insatisfatoriamente a passagem, até ao dia.
Amo o optimista. Não o quero interrogar nem procurar, quero vivê-lo. Quero amá-lo, mas amando-me primeiro.
Contento-me insatisfatoriamente em contemplá-lo.

Entre nós está uma janela e eu estou do lado de dentro.


Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, v a g o s cantos que componho enquanto espero.