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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Eu e eu ou Eu e o outro?


Querer pouco é de gente medíocre.

Querer muito é de gente estúpida.
Dizem.

Querer mais que muito é de quem?
"Ser melhor" discute-se-me com "Ser a melhor" e eu tenho necessidade de dar caminho livre para ambas avançarem.


quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Os Outros sou Eu

Os outros sou Eu.
Quando penso que estou a ser influenciada pelos juízos alheios estou antes a ser influenciada pela critica que o meu Eu faz do que vai conhecendo, do que me vou mostrando a mim mesma, porque é esse Eu o verdadeiro observador, o que é omnipresente e, curiosamente, omnisciente - e, por isso, julga quem me mostro ser, os meus pensamentos e comportamentos, mesmo quando me não encontro com ninguém.
Não, a educação não faz de mim quem sou.

domingo, 28 de junho de 2009

Tampouco tempo

Tenho tão pouco tempo!
O que estou eu a fazer aqui sentada
Em vez de correr lá para fora e procurar
Viver tudo intensamente. Fico parada,
Por mim, deixo a vida passar.

Tenho tão pouco tempo…
De que me serve pensar no futuro ansiogénico,
Se, pensando permito que ele não chegue nunca,
Chegando. A toda a hora, efémero.
Vá, não faças obséquio, não demores em passar. Finda.

Tampouco…
Em que é que o introvertido pode ser mais feliz que o extrovertido?
Se o extrovertido é, antes, introvertido, é afortunado.
Mas que fortuna tem o fado
Do apenas introvertido?

Tem tempo de ser introvertido quando morrer, ora.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Procuro o invisível e encontro coisa nenhuma

Conscientemente procuro a homeostase, procuro acreditar que é o que também o meu Eu procura, de modo a tranquilizar o meu ser.
Contudo, ao procurar conscientemente o equilíbrio, ao procurar a segurança interna com razão para essa procura, verifico que não posso ter motivo, razão para procurar o equilibrio e, ao mesmo tempo, o objectivo final do equilíbrio, do sossego, da não inquietação do espírito, da irracionalidade enquanto uma não-procura do porquê dos fenómenos.
Assim, verifico que o que realmente busco - sem supostamente saber que o faço - é a heterostasia, o aumento da tensão, o caminho para o auto-conhecimento, através da estimulação dos sentidos, procurando o invisível e encontrando coisa nenhuma.
.
Porque o que, afinal, procuro é a coisa em si e isso nao é conhecivel.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Mais fazia Nabucodonosor dormindo, que acordado



Faço mais a dormir que acordada.

Acordada governo quimericamente o corpo rotineiro que me domina.
A dormir, governo o liberal do meu espírito que também me domina, mas que, pelo contrário, não me importo.


domingo, 26 de abril de 2009

Gosto de me ver




Gosto de me ver, mesmo não tendo prazer nisso.
Gosto de desprevenidamente me apreciar, porque me amo sem saber que sou eu a pessoa que amo. Passo a ser o outro que não existe, o melhor observador, o maior admirador, o mais apaixonado, mas só até ter consciência de que sou eu que observo, que amo.

A consciência não bate à porta, como as percepções que a antecedem; mas, ao contrário, não é bem vinda. E é gorda, não permite lugar para mais nada senão para a sua própria função: pensar.

domingo, 15 de março de 2009

O Quase

Só desejo o que não tenho.
Mas não desejo ter, apesar de não ter, porque tenho a ilusão que tenho. O que desejo é conhecer.
O desejo é-me tudo e o conhecimento nada.
Sonho com o que me é impossível.
Quero descobrir o caminho que não precisa de técnicas nem ferramentas para ser caminhado.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Espelho - 1

Estou só.
Sou só.
Afugento também o meu Eu.
Ele fica só, mas a verdade também.
E eu sinto-me bem.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

T o l o



Ponho a máscara de tolo, a mais conveniente que conheci, a que esconde o reboliço que aqui vai, que encobre o que se enrola e desenrola.
Procuro ser essa máscara também por dentro. Sei, aliás, a forma que me permite sê-la e que só em estados transitórios e descontínuos a cumpro: basta, quando estou às escondidas, seguir aquilo que o actor faz quando entra em cena. É tão fácil…


Estados de equilíbrio são partidas que a mente me prega, formas de brincar ao toca-e-foge que me fazem criar expectativas insustentáveis.


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Entre nós há uma janela. Eu estou do lado de dentro


Não é este o conceito dos pessimistas, como aquele de Vigny, para quem a vida é uma cadeia, onde ele tecia palha para se distrair. Ser pessimista é tomar qualquer coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incómodo. Não temos, é certo, um conceito de valia que apliquemos à obra que produzimos. Produzimo-la, é certo, para nos distrair, porém não como o preso que tece a palha, para se distrair do Destino, senão da menina que borda almofadas, para se distrair, sem mais nada.
Pessoa



Amo o optimista, aprecio-lhe todos os passos que dá na vida, o que dela faz, aquilo que em si próprio cria. O optimista é o criador exemplar que deve ser contemplado por todos os que perdem tempo em pensar. Ele, mesmo conhecendo, mesmo vendo, sabe viver simplesmente.
O que resta ao pessimista senão a contemplação do destino de forma morosa? A única coisa que tem é o potencial para renegar a admiração pela acção, o facto de a querer viver. Mas também o próprio potencial tem moleza.
O contemplador é aquele que contempla tudo "na sua íntima substância". Em vigília, p e r d e - s e , esgota-se e volta a adormecer. Sobrevive, gozando insatisfatoriamente a passagem, até ao dia.
Amo o optimista. Não o quero interrogar nem procurar, quero vivê-lo. Quero amá-lo, mas amando-me primeiro.
Contento-me insatisfatoriamente em contemplá-lo.

Entre nós está uma janela e eu estou do lado de dentro.


Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, v a g o s cantos que componho enquanto espero.